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Resistindo ao velho normal: em busca do caminho do meio no trabalho
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“A mudança para outras cidades durante a pandemia e o apelo do nomadismo digital merecem ser considerados, mas afetam uma minoria. Mais relevante é a questão do controle”

02.06.2021|COLUNA

É provável que nenhuma empresa tenha influenciado mais a cultura do trabalho e a organização dos espaços de trabalho nos últimos 20 anos do que o Google. Comida gourmet de graça não pegou por aqui, mas os escritórios coloridos com mesas de pingue-pongue, o aval para ir trabalhar de bermuda e a expectativa de que você passe umas 15 horas por dia ralando têm sua origem rastreável até o Googleplex. É natural, então, que o mundo olhe para Mountain View em busca de inspiração para a volta ao trabalho presencial, que o Google marcou para setembro.

Eles vão incentivar, mas não obrigar, que os funcionários se vacinem antes de voltar ao escritório. Reequiparam os espaços de trabalho com móveis modulares que permitem incontáveis combinações, em vez de fileiras de mesas ao lado de salas de reunião. Cada área deverá ser pensada como uma tela em branco: as cadeiras, as mesas, os quadros brancos para anotações, tudo pode ser combinado em vários arranjos e reorganizado em questão de horas, a depender dos gostos e das necessidades de quem for trabalhar ali naquele dia. Há novos conceitos de salas de reunião. Num deles, participantes presenciais se sentarão em círculo, intercalados com grandes monitores, impossíveis de ignorar, para os participantes virtuais. Há ainda espaços de trabalho ao ar livre para quem não se sentir confortável em trabalhar em salas fechadas. A coisa chega a um nível de sofisticação que, se você estiver numa área aberta e precisar de privacidade, poderá chamar um robô para inflar uma parede de balões de celofane.

Tudo isso dá, a quem observa de longe, uma ideia da expectativa dos googlers para voltar ao escritório. Só que este é um daqueles casos em que a expectativa não condiz com a realidade. Nas últimas semanas, redes sociais e fóruns de discussão do Google foram tomados por posts contra a volta ao trabalho presencial. Muita gente se mudou para outras cidades e ameaça pedir demissão se for convocada ao escritório. É a mesma preocupação expressa por trabalhadores em toda parte. O caso do Google, porém, é emblemático por sugerir que mesmo profissionais de uma empresa na vanguarda do (re)design de escritórios resistem a voltar ao “velho normal.”

É interessante entender o que há por trás dessa resistência. A mudança para outras cidades durante a pandemia e o apelo do nomadismo digital merecem ser considerados, mas afetam uma minoria. Mais relevante é a questão do controle. Sobre nossas agendas. Sobre nossa vida.

“Os lockdowns tornaram real um mundo no qual os trabalhadores do conhecimento são deixados livres para gerenciar suas agendas”, observa David Mattin, criador da imperdível newsletter New World Same Humans. “Agora, a maioria deseja manter esse controle. Isso significa ir ao escritório quando decidirem que vale a pena; não quando forem convocados.”

Isso levanta questões sobre a relação empregador-empregado. Quando você vai trabalhar para uma empresa, o que está prometendo? Completar determinado conjunto de tarefas? Estar em determinado endereço em determinados horários? Trabalhar certo número de horas por dia? “No momento, a resposta oficial é: todas as opções anteriores”, nota Mattin. “Tem sido assim há tanto tempo que poucos pararam, nos tempos anteriores, para questionar se realmente fazia sentido. Mas na década de 2020 essas questões (…) estarão na ordem do dia como nunca antes.”

Por aqui, uma pesquisa recém-divulgada pelo IDC Brasil mostrou que o modelo híbrido já foi definido por 43% das empresas como padrão pós-pandemia – apenas 9% já escolheram o modelo 100% remoto. As empresas que ainda não se decidiram são 33% do total. Nelas, o modelo híbrido é desejado pela maioria dos trabalhadores: 59%. Entre os mais jovens (18 a 21 anos), a preferência por combinar parte do tempo em casa e parte no escritório é de 76%. Voltar a trabalhar todos os dias no escritório seria a preferência de 22% dos profissionais entrevistados.

A moral da história é que estamos bem no meio de um ponto de virada na história da organização do trabalho. Há precedentes nas primeiras revoluções industriais, mas nunca houve uma transformação tão rápida quanto a atual, por causa da pandemia. Logo, é natural que ninguém esteja seguro sobre o que vai acontecer no dia depois de amanhã – nem o pessoal do Google no Vale do Silício, nem os gestores de empresas ouvidos nessa pesquisa do IDC Brasil.  

É excitante ser parte de um momento histórico que com absoluta certeza vai ser estudado nas décadas e séculos à frente. O desafio, contudo, é não se deixar levar pela empolgação exagerada com o futurismo. Há fatos que precisam ser considerados, mas dispensam o hype. A constatação de que parte expressiva da força de trabalho pode mesmo trabalhar remotamente sem prejuízo para a produtividade é um dado que nunca mais poderá ser ignorado. Note, porém, o quão depressa recuamos da promessa do home office eterno. A realidade é que a pandemia obrigou o mundo a mergulhar no experimento do teletrabalho em tempo integral, e uma parcela expressiva das pessoas não gostou da experiência. Como vimos no caso do Google, isso não significa carta branca para voltar ao “velho normal”. O caminho é o do meio. O futuro é híbrido.

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Alexandre Teixeira

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